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Olhos de Prata
Autor: Rafael Fernando
Nunca vou me esquecer desta canção, o nome era Ave Maria. Ela linda, era cantada por uma mulher de voz doce e sedosa e embora fosse, religiosa, tinha seu tom especial. Era fúnebre, parecia trazer uma mensagem de mau presságio. Era sinistra, sim. O compositor, não consigo me recordar, mas foi um grande e prestigiado compositor de sua época; agora, ele e os seus pares não são tão relevantes atualmente, alguns já estão bem mais esquecidos; mas outros, como este, ainda são lembrados pelas suas composições. Não por bondade, mas somente pelo interesse às suas obras e o que eles representam para os conceitos modernos.
E foi pensando nesse em vários outros artistas clássicos, que com o passar dos dias não podia deixar de pensar sobre suas obras, sua forma de fazer arte e se expressarem. Muitos dias se passaram e então semanas e o entusiasmo sobre o tema não cessava; nem mesmo falhava um dia se quer. Para o meu contentamento, não muitos dias depois, quando já estava imerso no assunto, fui contatado para fazer um serviço na cidade; o homem morava no centro da cidade; era uma rua de pedras, estreita e pouquíssimo movimentada, era evidenciado pelo crescimento de musgo e capim por entre as rochas. Me recordo muito bem daquela rua; lembro também de que as casa menores que ficavam entre os casarões, como o desse senhor, sempre tinham um jardim à sua frente, alguns melhores, outros mais descuidados. Um jardim em especial que me marcou e que me recordo muito bem até hoje, é de uma pequena casa; tinha a cor bege, as janelas e a porta eram arqueadas e tinha o quintal sempre limpo e arrumado, grama cortada e o jardim afinado. Em meio às muitas plantas, uma passou a me chamar a atenção com o passar do tempo; tinha um jeito felpudo e longo, parecia uma larga calda de um gato.
Sempre chegava à rua sinuosa e estreita no meio da manha e só retornava a passar ao do pôr-do-sol. O senhor que havia me contratado era um velho vendedor de móveis de madeira nobre. Era um senhor meio franzino, mas duro e posso dizer que bem importuno por muitas vezes; gostava somente se as coisas fossem feitas à sua vontade e métodos, somente; se não era chato, demasiadamente chato. O que tinha de chato, tinha em fortuna. Após anos na função havia se tornado dono de uma lucrativa loja de móveis de madeira de qualidade e agora, na terceira idade, trabalhava por puro ego, pois nada poderia lhe faltar. Fui contratado pelo próprio homem para restaurar e conservar sua nada humilde coleção de pinturas. As obras estavam espalhadas pelo imenso casarão. Levei semanas, se não meses, para concluir o trabalho.
A maioria das pinturas tinha origem hispânica, uma minoria tinha origem inglesa e algumas poucas obras eram da Alemanha ou Áustria. Sua maioria tinha estilo clássico, bem trabalhadas e rebuscadas; embora, segundo as próprias palavras do homem, baratas. Isso não as torna mais horrendas, não para mim. O trabalho, embora não fosse mundialmente reconhecido, era claramente realizado por um profissional. Sempre respeitando leis de perspectiva, luz-sombra e anatomia entre outras técnicas. As primeiras que restaurei foram as da saleta da entrada, depois passei para todas as que havia nos corredores da casa; fui posteriormente ordenado a restaurar as que haviam nas salas e áreas comuns e só no final pude restauras as presentes nos quartos e cômodos mais íntimos. Em algum momento, passei a restaurar as telas que jaziam na biblioteca, era uma grande biblioteca pessoal, não tinha menos do que trinta metros quadrados. Havia muitas estantes que seguiam até o teto amadeirado do cômodo, todas completas com livros, haviam até prateleiras embutidas nas paredes, feitas de concreto; estas, guardavam os volumes mais finos e grandiosos. As grandes e robustas estantes de madeira formavam corredores paralelos a um corredor largo, lado oposto de uma grande bancada e uma escrivaninha fina; na mesma parede dos móveis, estavam grandes janelas de armações metálicas.
Em cada corredor de estantes havia uma pintura. No terceiro corredor estava um quadro retangular, era alto, revestido por uma moldura de madeira bem trabalhada e escura. A pintura representava uma paisagem, belíssima; um lago azul pousava à direita, um grande e sadio salgueiro à esquerda. Na base da árvore estava um grande tecido purpura, com objetos sobre ele, uma dama de vestido estava sobre a trama. Ao fundo, à vista imprecisa, viam se pessoas andando calmamente pelo grande gramado verde. A pintura era de fato belíssima, mas o que me motiva a contar esta história é algo diferente.
Em uma das vezes que tive que retirar ou recolocar o quadro em seu local, um livro na estante à direita me chamou a atenção. Era pequeno, tinha a capa feita de couro, entalhes em bronze e um aspecto muito antigo. Estava na última seção da estante, à mais à esquerda, na segunda linha de cima para baixo. Estava deitado sobre outros livros maiores, todos estavam muito empoeirados. O livro tinha um tema qualquer, se estou correto, era sobre a história da França, especificamente sobre Napoleão Bonaparte. Embora fosse entusiasta de antiguidades, não fora bem o livro em si que me despertou atenção, não senhor. No livro, logo nas primeiras páginas, havia um papel mais projetado, era menos de uma polegada; parecia um bilhete colocado ainda no prefácio ou sumário do livro. Mesmo sabendo que não seria descoberto a menos que o velho me visse bisbilhotando em suas coisas, não havia motivos o suficiente para me preocupar; e mesmo assim hesitei. Alguns minutos passaram, o interesse pelo item banal aumentou, verifiquei se o velho não vinha, voltei ao corredor e me ergui para pegar o tal livro.
Sem cerimônia, puxei o papal; tratava-se de uma carta. O papel era muito antigo, estava amarelado, cheio de manchas e marcas; ambos tinham o cheiro característico de antiguidades. Na carta, não haviam data ou nome. Estava aberta. O conteúdo era uma velha folha de papel, a carta e o livro agora pareciam novíssimos, comparado com esse papel; era ainda mais amarelado e encardido, tinha sua borda bem deteriorada, tinha marcas de dobras por toda parte, tinha de me esforçar para mantê-lo plano. A mensagem estava escrita com uma grafia impecável e claramente antiquada, a tinta já estava velha e desbotada. Pelos próximos minutos li a seguinte mensagem:
“Por esta carta passo a mensagem, a quem estiver lendo, saiba, fomos um povo leal, puro e fiel ao Senhor.
Somos todos da grande cidade, onde tu, lê a presente carta. Todos somos famílias, que orientados pelo reverendo Fortunato, partimos para as colinas verdes para constituir um novo povoado santo. Cruzamos a densa floresta que os cerca, passamos pelo grande lago Usher e depois tivemos nossa fé provada pelo pântano que se seguiu. A viagem até aqui, As Colinas Verdes, durou meses; graças ao Senhor, poucos de nós perecemos durante o trajeto. Nossa instalação no local não foi mais complicada do que o esperado. Nosso fim começou com o início da quarta semana.
Fomos perturbados por uma presença sinistra. Algumas crianças, certa noite, avistaram um animal observando o acampamento à beira da floresta, assustados, chamaram seus tios, que logo observaram o animal. O ser estava escondido no breu da noite, na área arbórea, longe da luz das tochas de das fogueiras, só podíamos enxergar um grande vulto e seus olhos. Alguns momentos se passaram, enquanto isso, eu mesmo pude ver os seus olhos cintilando, mas a fera se escondeu, partiu para o breu.
Nos dias que se seguiram, passamos a avistar a figura todas as noites. Sempre era invocada à beira da floresta, nas sombras; a única coisa visível, até hoje foram somente seus olhos. Não mais do que dois ou três dias depois da primeira aparição do ser, os animais desapareceram, não encontramos animal algum para caça, até mesmo os pássaros, todos, de maneira misteriosa, passaram a desaparecer. Não encontrávamos cadáveres, não se viam mais rastros ou sinal de predação. Em uma semana, nosso abastecimento de alimento se extinguiu, daí em diante fomos assolados por um período de sofrimento. Sem alimento, logo começamos a perecer e adoecer, muitos pereceram nas primeiras semanas que se seguiram, a maioria; nossas crianças e jovens.
Os corpos eram depositados em uma caverna que encontramos a noroeste do acampamento, muitos metros de distância; não conseguíamos enterrá-los próximos nem mesmo se quiséssemos. Que coisa honrosa é aquela, uma pilha de corpos, largados em um canto de uma rocha qualquer, sobe uma montanha qualquer, sem tipo algum de decência ou respeito… Meu filho jaz lá, junto ao meu irmão. Os corpos ainda não foram devorados, nem mesmo apodrecem. Santo Deus! Não sabemos o que estamos vivendo.
Com o passar do dia, mais e mais o acampamento de deteriorava. As cabanas ficaram frágeis, passaram a cair a toda ventania intensa, cada chuva pesada. No fim restaram somente três cabanas, das dezenas que montamos. Estávamos condenados, simplesmente condenados. Os dias se tornaram longos, interminavelmente sofridos e desgastantes e todas as noites, sem falha, lá estava a criatura, com seus olhos brancos nos encarando. Enquanto as cabanas se deterioravam e desmoronavam, a área luminosa e mais populosa do acampamento reduzia, semana a semana, menor e menor o acampamento; e mais e mais próximo à criatura se aproximava. Oh! Criatura vil, entidade maligna, sem forma, alma ou piedade; havia condenado nosso povo. Nunca podemos ver a entidade, não se aproximava da luz; em nossas discussões mais violentas, discutimos se ela havia de ter forma física, um corpo ou era somente uma manifestação sobrenatural de uma fera infernal. Isso também era comum. As discussões e delírios violentos se tornaram nosso punhal; estávamos cada dia mais delirantes, violentos e doentes. Tínhamos febre e outras doenças físicas que se pode contrair em uma situação inumana como esta. Decidimos, então, somente orar; esperar o que o Senhor comprar seu plano. Poucas semanas depois, perecemos por completo; agora, a grande expedição se resumia a penas quatro indivíduos. Nossa última cabana havia se deteriorado de vez; à noite, dormimos na mesma caverna dos corpos não apodrecidos, levamos o que conseguimos. Ao cair da noite, tínhamos somente algumas tochas e uma fogueira para iluminar e aquecer nossos corpos. Após à lua se erguer alta no céu, lá estava o ser; mais uma vez o grande animal nos observava. Estava mais próximo, a luz da fogueira era baixa e escassa, o vento soprava forte, nuvens escuras se aproximavam e escureceram o céu a antes estrelado; e lá permanecia a criatura.
Passaram-se minutos, e então horas, uma imensidão de horas; ela estava, perene, nos observando. A criatura não se distraía, andava de canto a outro, sempre cercando a área da entrada da caverna. Estávamos em tal situação que não conseguíamos conversar, os corpos estavam fracos e deteriorados; a mente insana e a alma perturbada. A presença da criatura nos causava tremor, mesmo com sua postura constante distante, ela causava um pânico sobrenatural, simplesmente diabólico. Após muitas horas dessa tortura, começamos a ver o Sol a tentar passar pelas densas nuvens negras e quando o ambiente ainda ameaçava clarear com os primeiros raios de luz, a grande besta desapareceu nas sombras.
O dia que se seguiu foi cinza e sombrio. Fomos assolados por uma grande chuva que perdurou durante todo o dia sem cessar. As horas eram longas e intermináveis enquanto éramos tomados pela doença e pelo desgaste físico. Nosso fim estava próximo, estávamos cientes e por isso, perturbados. Com o novo pôr-do-sol, uma nova provação nos caiu. Avistávamos uma grande ratazana, passando diante a entrada da grota; como bestas feras, nos atiramos ao animal. Na fúria, nos atacamos; um de nós conseguiu agarrar o roedor, que acabou cercado em uma cavidade da rocha; este, deu-lhe uma mordida poderosa em seu torço, dilacerando a carne e abrindo o corpo do animal ainda vivo. Vendo o prazer do outro a saborear carne fresca, suculenta, coberta por um viscoso sangue carmim, outro lhe atacou com mordidas e arranhões selvagens. O conflito se intensificou, todos os três estavam em um combate sangrento; lembro-me de ver o momento exato onde um dos envolvidos, um homem que não chegava aos trinta anos, teve seu olho esquerdo removido a mão nua. Em outro momento, um dos mais velhos agarrou uma rocha, pouco maior do que uma lamparina e a estava usando para bater contra o corpo dos outros; acertou e quebrou algumas costelas do mais jovem e bateu, matando o outro. O combate não perdurou muito mais, agora, dos quatro, somente dois restavam. Enquanto comia o animal cru, o senhor enlouqueceu, berrou como um animal selvagem a beira da morte; rasgou o resto do trapo que usava, outro grito agoniante e partiu a saltos selvagens e grotescos à floresta; desaparecendo.
Enquanto tudo isso ocorria, eu estava de canto, muito adoecido; na verdade, não me movia com decência há muitas horas. Observei tudo acontecendo diante de meus olhos, com menos dignidade do que um relógio de pêndulo observa um jantar. Os momentos que se seguiram foram sombrios, havia ali mais dois corpos, um tinha seu crânio estourado e tudo estava vazando, outro estava acabado em arranhões e marcas por todo o corpo. Agora, estava junto há somente a grande pilha de defuntos e os dois corpos frescos. A noite caiu e com a escuridão que se seguiu, esperei logo pela grande besta. Mais tarde, mais sombria e mais demoníaca, ela apareceu; olhava com seus olhos claros e brilhantes para mim, só para mim. Me encarava com atenção especial. Durante toda a noite tive de lutar para me manter consciente, e em todo momento ela estava lá, me encarando com os seus olhos de prata; olhava a minha alma, lia e se alimentava de tudo de podre. Não consegui, muitas horas antes do nascer do sol pereci a criatura. Fui tomado por um terror paralisante e então, uma visão terrível; o espanto foi tanto que meu corpo pereceu à doença e à loucura, estava condenado a encarar a besta, conviver com os defuntos dos que amei; tudo isso, fadado a ser observado por seus olhos de prata.”