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A Casa Pálida
Autor: Rafael Fernando
Estava eu voltando pelas ruas negras após minhas aulas e estudos humanos, já era tarde da noite, não havia luz alguma no céu e a única fonte de luz que me ajudava a enxergar os blocos de pedras negras da calçada vinham de pequenos postes de luz de eficiência e utilidade questionável, mas que faziam seu trabalho de forma minimamente utilizável para nós, meros súditos que pisavam nessas pobres pedras baratas e não em uma carruagem digníssima e magnânima.
Já fazia mais de meia hora que caminhava, mantinha um ritmo acelerado, queria chegar logo em casa, estava frio, havia certa névoa e ameaçava chover logo, podia ouvir constantemente os trovões ao longe, bradando como tambores de guerra que adiantam o conflito iminente entre forças maiores e, nesse caso, superiores a qualquer homem que vive ou pisou nesta terra; algo que aqueles mais nobres, os ditos doutores ainda se fascinam e usam como objeto de estudo. Passava pela parte arbórea, cheia de pinheiro e outras árvores de tronco longo e esquio quando senti um calafrio percorrendo toda a minha espinha. Recompus-me e segui, não muito adiante, cheguei à pequena casa do meio da avenida, aquela casa de aspecto abandonada as intemperes da natureza já há muitíssimo tempo. Já a vi muitas vezes, sempre que volto das minhas aulas eu a vejo. Às vezes durante o dia tenho a sorte de passar diante da construção. Mas, é durante a noite que sua natureza se revela. Emerge das trevas, da penumbra da noite uma visão aterrorizante, a casa que durante o dia não passa de um canto horroroso e desprezível, se torna o palco das maiores estranhezas podidas pela nossa mente criar e a manifestação de nossos medos mais sinistros e ancestrais. Aquela pequena casa, ao fundo, cercada de árvores que, agora, quase a cobrem por completo, peças de concreto, janelas, e tudo aquilo que se pode imaginar estão quebrados ou acabados quase até a sua inexistência. Dessa vez, quando passei diante esse poço de terror, vi a porta da frente, colocada bem ao centro da casa, entreaberta.
Chame-me de covarde, mas ali me surgiu um instinto ancestral. Senti novamente o calafrio pela espinha, ia e voltava sem parar, e só ia aumentando enquanto permanecia prostrado diante daquela casa demoníaca. Me senti pesado, os pés custavam a se levantar, as orelhas gelaram e o rosto adormeceu. O aterrorizante não era nada de mais, pensava. Mas ver a porta entreaberta e dentro estar aquele espaço negro, mais do que a própria morte, despertou uma repulsa inenarrável. A abertura tinha somente algumas polegadas. Talvez sempre estiveste aberta, talvez sempre foi assim e nunca percebi esse detalhe básico, mas que agora, talvez diante de uma falha dramática ou por uma mudança sórdida, esse fato se torna uma visão maquiavélica e aterrorizante. O espaço despertava um terror interno e ancestral. Podia sentir sua energia sombria.
Parei meu trajeto, estava próximo à mureta que cercava a frente do quintal, não muito longe estava o velho portão de ferro, agora muito deteriorado pelo tempo. No quintal, podia ver muito entulho, coisas velhas, quebradas; o capim tentava tomar o restante do espaço antes dominado pela grama. Olhando para a casa, podia ver como os galhos das grandes árvores à sua volta se torciam contra seu telhado em movimentos hipnóticos e rítmicos. Havia algo ali, algo maior e mais perturbador do que me vinha à mente; aquele tipo de coisa que o mais cético dos homens admite que não se deve perturbar. Me passava a mente milhares de coisas, dúvidas, perguntas existenciais e a curiosidade perturbadora que aquela casa emanava.
Enquanto sofria com o forte vento frio que me acertava e tentava ignorar a irritação da gélida garoa que começara, observa vá a casa à procura de minhas respostas. A casa era antiga; poderia dizer que fora construída por volta de oitenta ou setenta anos atrás. Possuía um estilo clássico grandioso e já antiquado. Tinha parte de seu telhado quebrado, também, suas paredes já estavam bem deterioradas pelas intemperes da natureza.
De súbito, um calafrio percorreu minha espinha como nunca havia visto. Meus ouvidos zuniram e minha visão se tornou turva. Prestes a despencar nas pedras úmidas e geladas, busquei me apoiar em qualquer coisa que pudesse. Não via, sentia ou escutava; estava perturbado por uma essência sombria e doentia. Quando imaginava que estava condenado, consegui me apoiar no decrépito muro da casa. Fortemente se segurei como e quanto pude, mas não foi suficiente, estava perdido, fraco soltei-me a cair. Minha visão escura, quase inconsciente; quase desmaiei, perturbado pela casa maldita. Alguns meros instantes se passaram, ao menos é o que acho, e é o que eu realmente penso, pois te relato isso. Estava de olhos fechados, não sentia meus membros devidamente, era como acordar de um pesado e atordoante sono. Sentia uma textura fria, úmida e áspera no rosto; atordoado, me levantei; ajoelhado, sentia o meu corpo rodar em uma espiral infinita.
Meus sentidos foram retornando assim que minha consciência retornava, gradualmente, me via ajoelhado no capim do interior do quintal da tal casa. Meu rosto ardia e coçava, minhas roupas estavam encharcadas. Ainda não havia conseguido me erguer. Forçando como pude, voltei-me e sentei no muro. Enquanto me recobrava dos sentidos, escutei um assovio vindo do outro lado da via.
Avistei uma figura. Homem ou mulher, jovem ou velha fora, não me importo! Vestia uma veste longa de tom arenoso, mesmo à distancia, podia sentir que tinha origem fina e digna; ao rosto usava uma máscara sem face de cor clara. Não se movia, somente assobiava uma sintonia aterrorizante. Minha alma se empalideceu, minha carne fraquejou e pensei estar diante do fim. Fora uma figura sobrenatural, invocada pela própria causa, movida a punir a perturbação da mesma. Não me restava coragem, ego ou esperança. Se havia, de alguma forma, perturbado a existência da moradia, seria punido por criaturas ancestrais, em um templo demoníaco, de uma história esquecida já há muitas eras.
As gotas da garoa se concentravam em meu rosto, roupas e cabelo. Os trovões se tornavam mais próximos, mais dramáticos e ameaçadores. Olhava ao meu redor; não via nada além da noite. Postes estavam longe, não via casas próximas, não passava alma viva àquele horário. Fitava a figura doentiamente, não virava o rosto; até mesmo evitava piscar os olhos. A água da chuva, que se concentrava, escorria pela sobrancelha e chegava aos olhos os irritando. Meu corpo havia se fixado da forma de quando avistei o ser. Doía cada parte. Tentava piscar os olhos alternadamente a fim de não perder a assombração de vista. E enquanto eu sofria, ela permanecia lá, imóvel, assobiando a sinfonia sinistra.
Muitíssimo tempo se passou, ou, ao menos foi o que me pareceu, se não, fora um feitiço invocado pelo ser sombrio. Enquanto sofria em agonia avistava a assombração desaparecer diante de meus olhos. Estava a pouco mais de alguns metros e mesmo assim não podia ter certeza do que via. Minuto a minuto, ela se tornava mais e mais translúcida. Certo momento, já não via mais nada; até mesmo a quase imperceptível sinfonia que assobiava havia desaparecido.
Livre de meu destino prematuro, me voltei à casa. A encarei com ira e repulsa; fora ela quem havia invocado o demônio para me perturbar os sonhos e a alma. Produzia pensamentos sórdidos e impuros sobre a casa; lembro-me vividamente a vontade que possuía de tacar-lhe fogo e a ver queimar até se transformar em brasa. Recompondo-me, em certo momento já estava pronto a partir; erguei-me do muro, passei pelo velho portal e quando já havia dado alguns passos do mesmo, escuto algo vindo da casa; um ruído. Foi um som alto, grave; parecia o som de algo pesado sendo arrastado dentro da casa. Assustado, me virei de súbito. Não via nada. O som continuava, encarava o negro das janelas à procura de algo, uma pista para a fonte de som. Um desespero incontrolável e quente se espalhou pelo meu sangue; estava fascinado com tamanha manifestação do sobrenatural. Agora, estando na minha situação atual digo, já estava fora de mim, não estava pensando direito; havia sido dominado pela energia escura que emanava do local. Seguindo a minha vontade, retornei o caminho, cheguei até o portão e o transpus.
Caminhava pelo trajeto remanescente de concreto, evitava pisar no capim ou fora das pedras. A passos lentos me aproximava da casa. As árvores se tornavam cada vez maiores, mais dominadoras, espaçosas e movimentadas. Podia ouvir, agora, o assovio que as janelas quebradas emitiam ao serem transpostas pelo vento. Após chegar ao que diria a metade do caminho, o som alto e claro de algo pesado estar sendo arrastado, cessa abruptamente. E da mesma forma pauso meus passos. Me mantive postado até ver ou ouvir algo, olhava ao redor, para o interior das pequenas janelas à procura de algo nas sombras, no quintal, na rua, mas não via nada. Nesse momento, noto que a garoa reduziu um pouco e dos cantos escuros emergia a fina e amedrontadora neblina. Sem aviso escuto algo vindo da casa.
Passos, leves, passam cruzando a casa; continuo imóvel. Alguns segundos se passam até que os passos se dirigem até uma das janelas frontais, há uma pausa e então o ser pula para o batente da mesma. Olho em choque para a janela, branco como a lua e grandioso como uma carruagem, surge um gato. Seu pelo era branco, tinha os olhos dourados em um cor fantasmagórica e luminosa. Embora estivesse chocado, não me movi, preferi ficar imóvel enquanto o ser me encarava silencioso. Por quase um minuto permanecemos nos fitando, em silêncio. A dito gato, tinha um olhar profundo e ameaçador, parecia ler cada entalhe da alma impura que possuía; eu, somente o encarava, tentando não perecer às suas ameaças vis. Sem aviso, solta um miado; foi alto, claro; parecia estar em minha própria cabeça, ainda imóvel volta a me encarar e então pula novamente para o interior da casa.
De imediato senti meu corpo relaxando. A casa, parecia ter perdido sua maldade e meu espírito parecia ter se dissipado. Após gastar tempo contemplando o que havia me transformado agora, segui para casa. Morava em um pequeno quarto em um prédio de apartamentos miserável.
A caminhada me pareceu longa, pesada, com muito esforço cheguei até o pátio central. Segui pelas estreitas e escuras escadas tortuosas do prédio. Passei pelo úmido e mofado corredor até chegar à minha porta; forcei-a a abrir, pois sempre emperrava. Estava finalmente ao meu quarto; sua decoração era pobre, não era muito mais do que um velho sofá, uma mesa já desgastada, um pequeno armário com um bom punhado de livros e uma pequena lareira que não utilizava. O quarto era minúsculo, tinha o teto baixo; suas paredes tinham tom bege com manchas do tempo. Não pude me segurar, despenquei sonolento no velho sofá e sem esforço adormeci. Momentos sombrios se seguiram, estando naquele tempo onde se está com tamanho sono que não se pode mover, não está acordado, mas também não está dormindo; está fora de suas capacidades mentais, aprisionado a sentir errado aquilo que lhe é dado; a interpretar errado tudo o que se pensa. O quarto estava frio, não havia nem se quer uma boa proteção na janela ou à porta. E a única fonte de luz do cômodo era uma pequena vela que jazia sobre a pedra superior da pequena lareira, sua luz era mínima e sua existência já estava fadada a findar-se. A chuva aumentava sua intensidade e os trovões batiam mais e mais altos.
Algo começava a surgir à mente, um delírio, uma visão. Avistava, de forma turva e incerta, uma jovem, quase mulher, tinha a pele clara; muito pálida e fina, estava sobre um leito fino, os lençóis eram brancos como algodão e a cama, muito bem trabalhada, tinha adornos em ouro. Parecia ter um sono pesado e tranquilo. O quarto, também seguia na mesma qualidade de trabalho e gosto do leito; tinha ótima pintura, muitos quadros às paredes e toda a mobília era fina e muito digna; estava bem iluminado por lindos candelabros em todos os cantos. Me aproximo da dama, todos os detalhes eram claros e vividos como o dia, dou um passo; sinto o macio e sedoso tapete que cerca a cama. Dou outro passo e estou ainda mais envolto por toda a graça e beleza do leito, fascinado.
Passei um momento admirando a dama, tudo nela parecia especial, precioso e único. Em certo momento, noto um som; era recorrente, irritante. Não me lembro quando começou, não consigo compreender se acabará de começar ou se somente havia ignorado momentos antes. Parecia bater contra algo rígido. Batia repentinamente contra pedra com um ritmo constante. O som aumentava, se tornava cada vez mais forte e presente; vinha de algum ponto do quarto. Olhava ao redor irado, precisava encontrar sua fonte. Passei a olhar os cantos, atrás dos quadros, tentei verificar se não estava vindo do exterior do quarto, mas a porta se encontrava trancada. Da porta, noto que o som parece vir exatamente do leito; me dirijo a verificar e dar um fim ao barulho infernal; vinha de baixo, me ajoelho e para poder ver algo, preciso levantar o grande fino lençol, olho para baixo, está muito escuro. Forço-me a enxergar algo, e vejo algo pingando do fundo da cama, percebo que há uma poça não muito longe, estendo meu braço. Quando minha mão encosta no líquido misterioso, o sinto frio, um receio para sobre mim ao puxar a mão novamente para a visão, vejo-a toda encharcada de um sangue vermelho vivo.
Fico ofegante, sinto um enjoo tremendo, passando o choque e vou a verificar a moça; está fria como rocha. Sua pele está pálida, seu corpo está relaxado e a exceção dos meus movimentos, não faz gesto algum. Meu corpo gela, meu espírito entra em estado de choque, havia entrado em alguma espécie de inferno ou punição. Meu corpo se estremece com o apagar das chamas dos candelabros, uma a uma as velas se apagam. Desesperado, corro para a porta. Bato, forço e não se move. Enquanto o desespero tomava meu corpo e as velas se findavam, somente ao apagar da última remanescente consigo abrir a grande porta de madeira.
Caio desorientado em um cômodo escuro; está frio e as pedras do chão úmidas. Meu coração batia forte e quase estourava de meu peito. Ainda em choque, me deito de costas. Lentamente minha visão passa a encontrar alguma luz no cômodo; vinha de cima, era escassa. Também sentia a garoa. Recobrando os sentidos, passo a sentir uma enorme dor no abdômen, uma dor indescritível e intensa; na tentativa de apoiar minha mão sinto algo, um punhal. Meu corpo enfraquece, minha visão volta, estou em um velho e acabado quarto, semelhante ao anterior, quase idêntico; ao contrário da contraparte, este tem seus restos à beira do fim, não possui mais seus quadros nas paredes e já perdeu toda a sua finura. O quarto também apresenta uma grande abertura no telhado, havia caído após as madeiras apodrecerem. Tudo tinha o aspecto de abandonado há muito tempo.
Olhando ao redor, tenho uma visão infernal. Um corpo já em um avanço de decomposição avançado, mas ainda, de forma demoníaca, mantinha parte de seus tecidos e cabelos. Estava deitado, largado paralelamente ao meu corpo, que também já estava podre e velho. No meu ferimento não havia sangue; notei minhas mãos estavam velhas, secas e podres. Tomado de espanto e desespero, tentei erguer-me e me libertar deste pesadelo, tentei por muito tempo despertar. Por muito tempo tinha a esperança de me libertar; não há saída. Na cabeceira da cama, avistei o único quadro restante, tinha o mesmo trabalho fino dos outros e do próprio quarto em seus tempos áureos, mas já estava velho e desbotado. No quadro, jaziam a mesma dama de antes, sentada ao lado de outro jovem; o casal formavam um conjunto majestoso, quase real. O rosto do rapaz estava tão desbotado que se tornará branco e indistinguível. Não havia saída, não havia fim; estava fadado a sofrer pelos meus atos e pela minha alma impura.