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Uma capa de livro com o nome A Noite das Estranhezas

A Noite das Estranhezas

Autor: Rafael Fernando

Longe de toda estrada movimentada pousava a cidade. O povoado era rústico e se mantém pela própria criação de animais e pelas próprias plantações. Suas casas são pequenas e construídas em um tempo já muito passado. Os ponteiros do relógio da praça marcavam onze e vinte. Os mais velhos jogavam dama nas mesas da praça, os jovens trabalhavam e as crianças corriam pelas ruas e passagens. Sobe o monte, podia-se ver tudo, menos sinal de qualquer civilização próxima. No pé do morro, ao lado da única rua que ligava a cidade, há um obelisco de rocha com corpo de homem e cabeça de gavião. Nas casas, há quadros pintados à mão sobre uma figura de corpo de homem e cabeça de gavião. Na praça, ao centro, há um memorial à figura com corpo de homem e cabeça de gavião.

Enquanto os anciões jogavam nas mesinhas da praça, os jovens trabalhavam e as crianças brincavam; ao longe, se ouvia um ruído grave, parecia se aproximar a cada instante. As crianças, se dirigiram aos jovens e os questionaram “O que é esse som?” Os jovens não souberam responder, então se dirigiram aos anciões e perguntaram “Senhores, o que é esse som? E de onde ele vem?” Os velhos se entreolharam e nada disseram. Todos haviam parado para esperar ver a origem do som que se aproximava entre as colinas, entre os bosques e entre os barrancos. Os mais velhos permaneceram nos bancos, os jovens se reuniram aos pés das árvores e as crianças se sentaram à beira da rua, ao lado das flores e pedras

O tempo passou e o som se apresentava mais vivo a cada momento. Um automóvel chegou e com ele o mistério sobre a origem do som se encerrou. Todos olharam curiosos, não viam um desses há eras e não se assemelhava muito as descrições e imagens que alguns possuíam em sua mente. O carro era guiado por um homem e que viajava só. Todos observaram em silêncio enquanto o carro chegava a via principal onde estava à praça e grande parte dos que observavam. O carro passou, o homem cumprimentou os moradores e segui seu rumo. Ainda se ouvia o som do motor, o homem estava retornando para a praça, por outro lado. Quando chegou, parou o veículo à frente da pequena igreja, desceu e se dirigiu para os jovens no outro lado da praça.

Chegando no grupo de jovens lhes cumprimentou e perguntou onde estava. Boa Espera, respondeu uma jovem. O rapaz lhes lhe perguntou se possuíam um local onde pudesse se hospedar. Sim, há uma pousada na rua de baixo, tem uma placa com o nome Hospedaria da Amélia. Pode se hospedar lá. Respondeu a jovem novamente. O rapaz agradeceu os jovens e voltou para o carro.

Antes de entrar no veículo e seguir para a hospedaria, foi chamado por um dos velhos. Gostaria de um almoço filho? Perguntou-lhe um velho de bigode largo que jogava cartas. Seria ótimo, respondeu. Por favor, senhor, poderia me informar as horas? O velho disse que não possuía relógio consigo e que talvez na hospedaria que lhe fora recomendada poderia haver algum. Mudando de assunto, há um bar aqui ao lado, tenho certeza que o Firmino poderá lhe servir feijão e um bom bife.

O rapaz agradeceu a recomendação do senhor e se dirigiu para a hospedaria em seu automóvel. Estava a uma rua abaixo da rua da praça, na direção oposta. Não se via qualquer outro automóvel nas redondezas e o veículo comum parecia apenas charretes, cavalos e semelhantes. Seu carro, estacionado pouco à frente da hospedaria, não atrapalharia muito naquela rua estreita.

A hospedaria não era maior do que as outras casas locais. A porta estava destrancada e ao entrar sentiu o forte cheiro de bolor, a porta de madeira maciça pesou e rangeu; precisou fazer força para abri-la. Assim que entrou na sala, uma velha senhora que costurava no canto o cumprimentou de forma ligeira e estridente. O ambiente escuro lhe dificultou vê-la quando entrou e a pouca luz fez com que a fala da senhora fosse assombrosa, fazendo-o ter calafrios. Seja bem-vindo à hospedaria senhor. Bem-vindo à Boa Espera senhor. Como posso ajudá-lo? Completou a anciã. O homem lhe solicitou por um quarto para pernoitar, perguntou sobre Firmino e se poderia se alimentar lá; também lhe perguntou sobre as horas. Ah! Jovem, não posso lhe ajudar com isso. Eu tinha aquele relógio, mas quebrou há muito tempo e o homem que entende de consertá-lo ainda não veio, nunca retorna minhas cartas. Disse isso enquanto observavam um relógio de pêndulo na sala principal, estava imóvel, empoeirado e com muitas marcas de uso; marcava onze e vinte. Para o jovem, parecia tão velho quanto aquela senhora com que conversava.

A mulher já de muita idade, baixa e de óculos de grau intenso, passou a mostrar a pequena hospedaria. Mostrou todos os cinco quartos que possuía, o quintal nos fundos com o jardim e ao carvalho plantado pelo seu marido quando ainda eram jovens. A senhorinha lhe falou muito sobre a cidadezinha, como vivem atualmente com pouca ajuda do estado. Deu lhe também algumas opções de ruas e lugares próximos que poderia ir à cidade caso quisesse passear. Após muita conversa, o jovem conseguiu colocar seus pertences em um dos quartos e após isso saiu para comer.

Já era tarde, as sombras eram mais longas e o sol alaranjado. Voltou em direção à praça e assim que virou a esquina, avistou a torrezinha do relógio bem próximo da onde havia parado o carro. Foi tomado por um entusiasmo ao saber que após dias com o relógio errado o poderia consertá-lo. Seu animo se dispersou quando notou que o relógio marcava onze e vinte e apenas o ponteiro dos segundos se movia. O relógio da praça também estava quebrado. Uma decepção amarga tomou conta de seu corpo e um desespero áspero inundou sua mente. Que horas são? Alguém aqui sabe que horas são?

Como Já era bem tarde, a aurora de dedos rosados se erguia no céu. Ele caminha por uma das vias laterais à praça, era direcionada aos campos e de longe podia ver o brilho dourado do Sol refletindo no trigo o deixando brilhoso. Na colina onde estava o trigo, muito longe, à cima avistou algo e após alguns passos sem identificar o que fosse, parou completamente para pensar melhor.

Não tinha forma clara, poderia ser da dimensão de uma pessoa, ou maior, não saberia dizer, estava muito longe. Parecia flutuar sobre o campo de trigo e girar lentamente. O obelisco era sombrio e não podia ver detalhes. Ao olhar ao redor se viu só, não havia ninguém na rua, as casas pareciam vazias e o único som que ouvia era o canto distante dos pássaros. As casas ao seu redor tornavam a via escura e a brisa que passava se tornava fria; as nuvens no céu refletiam uma cor rosa enquanto o campo se mantinha igualmente dourado.

Seguiu então para o fim da rua, que descia até um pasto onde pastavam carneiros e algumas vacas, lá não havia casas ao redor e agora poderia ver muito mais da paisagem. Conseguia ver o grandioso Sol se pondo atrás dos distantes morros e nuvens sombrias e sinistras ao longe no leste. Mais baixo, pudera ver com clareza que o obelisco parecia mais ainda flutuar sobre o campo. O jovem o fitou por vários minutos, sem saber o que fazer, permaneceu postado até o céu se tornar azul e os campos se escurecerem. Antes de voltar de pressa e avisar alguém, o obelisco se moveu, passou a rondar o campo em um movimento circular. Basta! Pensou enfurecido e voltou para a hospedaria.

Havia saído de perto do pasto e não muito tempo depois já retornava ao ponto onde avistou o objeto estranho. Olhava para trás e já não o via. Estaria se movendo ou então esteja passando por outros locais, se questionava enquanto caminha na fria rua de pedras da hospedaria. Passou pelo seu automóvel e se dirigiu para a porta da hospedaria, que ao abrir, estava mais pesada e lhe foi necessário muito mais força para abri-la. Ao entrar na sala de recepção, o cheiro de mofo o tomou, o ambiente se apresentava em uma escuridão sinistra; não era de todo escuro, ainda poderia discernir os objetos, mas era pobremente iluminado por pouquíssimas velas e a luz que vinha de fora tornava os cômodos azulados e frios. Dentro percebeu também que deixara o silêncio do lado de fora por um ainda pior, não se ouvia nada, e era muito mais aterrorizador do que o lado de fora, onde se ouvia pássaros e grilos ao anoitecer. Não se escutava nada além do ranger das tábuas ao pisar sobre o assoalho e o barulho que suas boas faziam ao raspar a areia do chão.

Se dirigiu ao quarto com calma e em silêncio. Enquanto caminhava pelo corredor, sentia o cheiro cada vez mais forte de mofo e coisas velhas. Próximo à porta, já sacava suas chaves para abrir sua porta, naquele momento lhe cruzou uma brisa fria que vinha dos fundos. O som das chaves parecia seco e após ranger a fechadura a porta de abriu com um empurrão seco.

O quarto era pequeno, no cômodo havia uma cama de casal larga e com um aspecto bem antigo, com molas e uma estrutura de madeira trabalhada. Ao lado, uma cômoda, possuía duas gavetas e no topo, em cima de um pano feito a mão, um vaso de vidro com uma flor silvestre branca. Na parede à esquerda da entrada, ao lado da cama, de frente para ela, havia um armário, este parecia mais simples, mas também muito velho. No chão havia um tapete, aparentemente novo, mas nada interessante, também parecia ter sido feito à mão. A pequena janela do quarto dava a um corredor lateral, que não viu e a senhora não lhe apresentou. Próximo havia uma roseira, não havia rosa alguma, apenas caules e folhas. Não havia analisado o quarto, embora suas malas estivessem sobre a cama, passou sem dar atenção alguma ao local.

A noite caia rápido, a luz azul que vinha pela janela se tornava mais sombria e fraca a cada instante. Se apressou e na primeira gaveta da cômoda encontrou um par de velas, as ligou e as colocou sobre um pedaço de papel que guardou do momento de quando comia. À luz de vela passou a tirar os sapatos, mover suas malas e se preparar para dormir. Em menos de um quarto de hora, estava deitado. O colchão parecia de palha e o cobertor parecia coçar através da roupa, o travesseiro pelo contrário, era macio e sedoso.

O tempo se passou, a luz emitida pela vela se enfraquecia, a noite esfriava e o sono se recusava a vir. Para poupar, decidiu apagar a vela. O tempo passou e seus olhos se acostumaram com a baixa luz, podendo até discernir cada fileira do forro de madeira do quarto. Sua mente vagava por diversos assuntos enquanto não adormecia, até certo momento; quando observou um quadro na parede da porta, logo acima do arco da porta.

O quadro bizarro continha a figura que já parecia ter avistado na cidade outras vezes. A figura do homem com uma cabeça de gavião. O quadro não era grande, tinha ao menos um palmo de largura, a figura se apresentava de braços cruzados, como em outros locais, sobre um fundo azul-celeste. A escuridão tornava difícil de discernir os detalhes, por vezes, quase se levantou para analisar de perto, mas escolheu verificar apenas pela manhã e não arriscar atrasar ainda mais o sono. Não conseguia pensar direito; as muitas horas atrás do volante e a falta de sono dificultavam seu raciocínio e o tédio o consumia.

Quando sua mente já estava longe, passou a escutar sussurros. Vozes muito baixas e longe demais para se escutar. Elas prosseguiram por um tempo sem alteração, até que se tornaram mais numerosas e se podia escutar mais ainda. As vozes vinham da rua: fosse um ato cultural ou manifestação religiosa macabra, deu lhe de averiguar; e como se encontrava sem sono algum, partiu depressa para ver do que se tratava. Calçou seus sapatos e vestiu seu paletó e com passos leves cruzou o quarto. Antes de sair encarou o quadro que viu antes: logo abaixo da pintura do homem, na tinta azul, estava escrito “Videbimus vos ad finem.”

Passou rápido pelo corredor e ao chegar na sala de entrada as vozes se tornaram mais claras. Antes de sair, espiou pela janela para verificar o que acontecia na rua a sua frente: não viu ninguém. Em silêncio abriu a porta e esgueirando-se pelos cantos subiu a rua de pedras até onde as vozes vinham: a praça. Antes de chegar à esquina se grudou à parede oposta e por lá permaneceu enquanto tentava decifrar o que falavam. Foi um esforço em vão, já que pareciam falar uma língua diferente e de forma assíncrona.

Com um movimento sutil, colocou sua cabeça em posição em direção à multidão. Avistou várias pessoas de pé, ao centro da praça portando velas, vestindo coroas de pena em um círculo em volta de uma mulher já de idade, vestia um véu branco que cobria seu corpo todo. Haviam apenas adultos e após contar o que achou um quarto, numerou por volta oitenta pessoas no total. Tomado pela tentação, se aproximou com cautela — a noite estava nublada e a lua oculta por nuvens grossas, assim pode se aproximar sem ser visto.

Quis entender o que diziam, mas após algum tempo sem avanço, já pensava em ir. De repente todos erguem os braços para o alto, um coro sincronizado começa e do alto do morro o homem escuta um canto, como um assovio. Assustado, olha para a direção e no alto, sobre as copas negras das árvores, uma figura sombria que não se vê forma, se ergue e abre duas gigantescas asas. O homem grita com o susto, mas os outros não o percebem. Em pânico parte de volta para a hospedaria. No quarto, fica histérico.

O dia amanheceu, se encontra vestido por completo e ainda calçava seus sapatos. Não se recorda de quando ao certo havia se deitado ou adormecido. Era cedo e o sol parecia ter nascido recentemente. Passou longos minutos ruminando no quarto se deveria ou não sair o quanto antes — suas intenções desmoronaram ao sentir ruídos vindo do local, a senhora havia acordado e ao menos com ela teria que lidar. Sem demora, recolheu seus pertences e suas malas, cruzou para a sala de entrada. Antes de sair, porém, foi abordado pela velha dona: o tratou bem e o convidou para um café e depois de muito se esquivar o jovem conseguiu partir.

Assim que ligou seu carro e cruzava pela praça de onde estava à noite, avistou os mesmos senhores de antes; e eles o cumprimentou em sua partida alegres. Mais longe, fora da área povoada, olhou em direção ao iluminado campo de trigo onde avistou o obelisco; achou o local exato, mas não havia mais nada.