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Uma capa de livro com o nome Súplicas da Noite

Súplicas da Noite

Autor: Rafael Fernando

Me jazia na varanda da pequena cabana. Meu local de abandono, fora esquecido por tudo e todos, não havia bobos e heróis; não existiam mais tolos e doutores, somente as folhas mortas e galhos sobre mim. Do que me restava de corpo, voltei-me para dentro, a brisa gélida da noite de lua cheia passava a me gelar a espinha, doía os ossos e estremecia os membros. Me restringi a levar somente um pouco de lenha para dentro, ao pegar as todas do montante, senti uma picada na mão. Em pânico a puxei com receio, as toras caíram o rolaram por todo assoalho. Virei minha mão, antes mesmo de ver o que fora, senti minha carne estremecer, parecia sentir o terror iminente antes mesmo de eu vê-lo. Ao avistar a criatura, tive repulsa e calafrios; gostaria de removê-la logo da minha mão, ela, que se prendia como um anelídeo faminto e necessitado, desesperado por dor e agonia. O ser tinha o corpo longo, cascudo como um galho, tinha muitas pernas, infindáveis pares de pernas. Duas mandíbulas violentas se pressionavam contra a minha mão, puxando e minha pele e um bico afiado sugava o que podia; no fim, a criatura possuia um espinho carmim com partes adjacentes amedrontadoras.

Com a outra mão o puxei. A besta caiu no assoalho, ao tentar pisoteá-la ela se esgueirou entre as toras e sumiu no breu. Minha mão ardia, sentia todo o braço pulsando e ardendo; nada podia fazer, já estava condenado antes mesmo do terrível ser aparecer. Ainda mais debilitado, adentrei a rústica cabana. Após comer o restante do pão de farinha, me deitei na velha cama de palhas secas. A cabana estava fria, o vento passava entre as fendas das paredes, pelos buracos do telhado e a umidade subia pelo pobre piso de madeira.

Não pude dormir, somente ouvia os murmúrios e sussurros deles. Eles estavam em baixo do chão. Estavam me testando, como toda noite, os seres possessos repousaram sobre o piso para atormentar aquilo que me restava. Falavam coisas vis, suplicavam salvação, solicitavam ajuda e misericórdia como um condenado, não podia dizer nada; ficava imóvel, não piscava, não me movia, talvez assim eles fossem em bora.

O tempo passou, sentia meu corpo adormecendo, meu coração batia mais e mais forte, meus ouvidos passaram a zunir e tampar; sabia que minha hora havia chegado. Enquanto me segurava naquilo que restou de sanidade, me questionei o sentido do ser e da humanidade desse que vos fala; eles ordenavam, solicitavam e passavam ordens, tentei ignorá-los, mas eram numerosos, insistentes como o cão. Horas depois cedi às suas ordens, erguei-me meu corpo esquelético, demasiadamente deteriorado pela idade. Meu corpo já queimava, perturbado; derrubei a lamparina para dar um fim a tudo.

Enquanto o óleo começava a se espalhar, senti-me tão vivo quanto nos dias áureos. O fogo passava a queimar mais e mais; alcancei o machado que estava ao canto e iniciei a destruir o piso da cabana. Pancada a pancada descobria mais e mais do que estava em baixo. Podia sentir os espíritos se libertarem e se acumularem sobre minha alma; tábua a tábua botei tudo a baixo. Quando já terminava o assoalho, o fogo já alcançava o ponto mais alto das paredes e do telhado, tudo queimava ao meu redor; então, toras e tábuas em chamas passaram a cair sobre mim. Eu jazia sobre os corpos, incontáveis restos daqueles que dizimei, corpos já pútridos e consumidos por vermes, somente os negros restos lhe restavam. Eles estavam comigo, cedi às suas ordens e eles me levariam junto às chamas.

As chamas me alcançaram, queimei enquanto tudo ao meu redor sucumbia em chamas e fumaça. Queimava como brasa e mesmo assim estava satisfeito, havia conseguido me livrar deles, agora todos estávamos no inferno, o sonho dos homens. Não restava mais nada de antes, a cabana se resumia a uma pilha de carvão e brasa quentes. E tudo aquilo que uma vez, morto ou vivo que repousava sobre a estrutura, se fora.